terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Êxtase

(O pescador e a Sereia, por Frederic Leighton )


Num jacto impulsivo e repentino
Eu vi, como uma sinfonia alta
E excessivamente explosiva,
Em meu rosto o teu rosto!
Em minha boca, tua boca!!

No toque mais louco,
Da coragem que nos torna um só
Por estranha inquietação,
Como se fosse uma aventura única.

Misturam-se nossas águas,
Em paixão desmedida.
Desnudado e atrevido, me tornaste mulher
Me fizeste mais Feliz!

Olho nos olho, tu me devoras!
Corpo a corpo, te me torturas!
E me consomes, completas!

Lá fora, bem ao longe...A chuva se esvai.
Tu te repartes lépido e fogoso,
Te agitas e me excita com mil idéias bonitas
És deliciosamente faceiro e sedutor!!

Gardênia Salvador Rodrigues

Segunda Impaciência do Poeta

Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.

Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.

Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.

Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.

Gregório de Matos

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Amor Bastante

(Alameda do Jardim Botânico, por Washington Maguetas)


Quando eu vi você
Tive uma idéia brilhante
Foi como se eu olhasse
De dentro de um diamante
E meu olho ganhasse
Mil faces num só instante

Basta um instante
e você tem amor bastante

Um bom poema
Leva anos
Cinco jogando bola,
Mais cinco estudando sânscrito,
Seis carregando pedra,
Nove namorando a vizinha,
Sete levando porrada,
Quatro andando sozinho,
Três mudando de cidade,
Dez trocando de assunto,
Uma eternidade, eu e você,
Caminhando junto
Paulo Leminski

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Gosto quando te calas

(Flores no vaso, por Renoir)

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
Pablo Neruda

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Amar e ser amado

Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz... que pensamento!?

"Castro Alves"

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

As sem-razões do amor

(Calais sands at low water, por William Turner)

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor

"Carlos Drummond de Andrade"