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terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Sala de espera

Sala de espera de dentista. Homem dos seus quarenta anos. Mulher jovem e bonita. Ela folheia uma Cruzeiro de 1950. Ele finge que lê uma Vida dentária.

Ele pensa: que mulherão. Que pernas. Coisa rara, ver pernas hoje em dia. Anda todo mundo de jeans. Voltamos à época em que o máximo era espiar um tornozelo. Sempre fui um homem de pernas. Pernas com meias. Meias de náilon. Como eu sou antigo. Bom era o barulhinho. Suish-suish. Elas cruzavam as pernas e fazia suish-suish. Eu era doido por um suish-suish.

Ela pensa: cara engraçado. Lendo a revista de cabeça para baixo.

Ele: te arranco a roupa e te beijo toda. Começando pelo pé. Que cena. A enfermeira abre a porta e nos encontra nus sobre o carpete, eu beijando o pé. O que é isso?! Não é o que a senhora está pensando. É que entrou um cisco no olho desta moça e eu estou tentando tirar. Mas o olho é na outra ponta! Eu ia chegar lá. Eu ia chegar lá.

Ela: ele está olhando as minhas pernas por baixo da revista. Vou descruzar as pernas e cruzar de novo. Só para ele aprender.

Ele: ela descruzou e cruzou de novo! Ai meu Deus. Foi pra me matar. Ela sabe que eu estou olhando. Também, a revista está de cabeça pra baixo. E agora? Vou ter que dizer alguma coisa.

Ela: ele até que é simpático, coitado. Grisalho. Distinto. Vai dizer alguma coisa...

Ele: o que é que eu digo? Tenho que fazer alguma referência à revista virada. Não posso deixar que ela me considere um bobo. Não sou um adolescente. Finjo que examino a revista mais de perto, depois digo Sabe que só agora me dei conta de que estava lendo essa revista de cabeça para baixo? Pensei que fosse em russo. Aí ela ri e eu digo E essa sua Cruzeiro? Tão antiga que deve estar impressa em pergaminho, é ou não é? Deve ter desenhos infantis do Millôr. Aí riremos os dois, civilizadamente. Falaremos nas eleições e na vida em geral. Afinal, somos duas pessoas normais, reunidas por circunstância numa sala de espera. Conversaremos cordialmente. Aí eu dou um pulo e arranco toda a roupa dela.

Ela: ele vai falar ou não? É do tipo tímido. Vai dizer que tempo, né? A senhora não acha? É do tipo que pergunta Senhora ou senhorita? Até que seria diferente. Hoje em dia a maioria já entra rachando... Vamos variar de posição, boneca? Mas espere, nós ainda nem nos conhecemos, não fizemos amor em posição nenhuma! É que eu odeio as preliminares. Esse é diferente. Distinto. Respeitador.

Ele: digo o quê? Tem um assunto óbvio. Estamos os dois esperando a vez num dentista. Já temos alguma coisa em comum. Primeira consulta? Não, não. Sou cliente antiga. Estou no meio do tratamento. Canal? É. E o senhor? Fazendo meu check-up anual. Acho que estou com uma cárie aqui atrás. Quer ver? Com esta luz não sei se... Vamos para o meu apartamento. Lá a luz é melhor. Ou então ela diz pobrezinho, como você deve estar sofrendo. Vem aqui e encosta a cabecinha no meu ombro, vem. Eu dou um beijinho e passa. Olhe, acho que um beijo por fora não adianta. Está doendo muito. Quem sabe com a sua língua...

Ela: ele desistiu de falar. Gosto de homens tímidos. Maduros e tímidos. Ele está se abanando com a revista. Vai falar do tempo. Calor, né? Aí eu digo É verão. E ele: É exatamente isso! Como você é perspicaz. Estou com vontade de sair daqui e tomar um chope. Nem me fale em chope. Você não gosta de chope? Não, é que qualquer coisa gelada me dói a obturação. Ah, então você está aqui para consultar o dentista, como eu. Que coincidência espantosa! Os dois estamos com calor e concordamos que a causa é o verão. Os dois temos o mesmo dentista. É o destino. Você é a mulher que eu esperava todos estes anos. Posso pedir sua mão em noivado?

Ele: ela está chegando ao fim da revista. Já passou o crime do Sacopã, as fotos de discos voadores... Acabou! Olhou para mim. Tem que ser agora. Digo: Você está aqui para limpeza de pernas? Digo, de dentes? Ou para algo mais profundo como uma paixão arrebatadora por pobre de mim?

Ela: e se eu disser alguma coisa? Estou precisando de alguém estável na minha vida. Alguém grisalho. Esta pode ser a minha grande oportunidade. Se ele disser qualquer coisa, eu dou o bote. Calor, né? Eu também te amo!

Ele: melhor não dizer nada. Um mulherão desses. Quem sou eu? É muita perna pra mim. Se fosse uma só, mas duas! Esquece, rapaz. Pensa na tua cárie que é melhor. Claro que não faz mal dizer qualquer coisinha. Você vem sempre aqui? Gosto do Roberto Carlos? O que serão os buracos negros? Meu Deus, ela vai falar!

- O senhor podia...
- Não! Quero dizer, sim?
- Me alcançar outra revista?
- Ahn... Cigarra ou Revista dda Semana?
- Cigarra.
- Aqui está.
- Obrigada.

Aí a enfermeira abre a porta e diz:
- O próximo.

E eles nunca mais se vêem
Luis Fernando Veríssimo

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Tu e Eu

(Composition, por Jackson Pollock)

Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobo
eu sou mais albônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.

És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.

Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.

És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.

Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.


Luiz Fernando Veríssimo
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Contribuição da prima!!!!
Brigadão Nathalie!!!! =D

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Conto de fadas para mulheres do século XXI

Era uma vez… numa terra muito distante…

Uma princesa linda, independente e cheia de auto-estima se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas.

Então a rã pulou para o seu colo e disse:

- Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me
nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo. A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre…”

Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um cremoso molho e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma:

- Nem morta!

Luis Fernando Veríssimo

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

A segunda

Tenho uma tese que é a seguinte: tantos casamentos dão errado porque o homem só casa certo na segunda vez. Faça um teste com seus amigos, ou com homens famosos: de quantos você diz que "agora acertaram", depois de um primeiro casamento precipitado, equivocado e obviamente fracassado? A segunda mulher geralmente é tudo que a primeira não foi, ou devia ser, mas não era. Não é uma esposa, é uma retificação.

Dos homens que se casam cedo pode-se dizer o mesmo que dizemos dos vestibulandos obrigados a escolher uma carreira para toda a vida quando ainda não sabem escolher uma gravata. Falta-lhes a maturidade que só terão quando conhecerem melhor a vida e a si mesmos, e escolherem a segunda. A segunda mulher é como a revelação de que a sua vocação, afinal, não era a engenharia de sistemas, era o paisagismo. Ou que você casou com uma idealização sexual, ou com a sua mãe, ou com outra alucinação igualmente provisória.

Antigamente só se casava uma vez, mas aí a segunda mulher era a amante. O homem vivia com o engano e com a correção ao mesmo tempo. Para não dizerem que a tese é machista, ela também serve para mulheres, com uma complicação: o segundo marido só é o certo para a mulher se ela também for a sua segunda.

Se ela for a primeira ou a terceira - ou a quarta ou a quinta, etc. - não funcionará. Ele será o seu segundo, e portanto teoricamente o certo, mas com um defeito grave: ainda estará procurando a sua segunda. Ou já a encontrou e não a reconheceu, e não se contentará com mulher alguma.

Dirá você que conhece primeiros casamentos que deram certo. Certifique-se de que não há nenhum tipo de simulação, que os dois só não partiram para a segunda tentativa por comodismo, ou se não existem segundas ou segundos clandestinos em algum lugar. Se a felicidade for real, é porque aconteceu uma anomalia prevista na tese: a dos homens que casam com a segunda na primeira vez. É raro, mas acontece.

Luis Fernando Veríssimo

Quem já não passou por isso...

(por Vicent Van Gogh)

Quem é que nunca teve um Paulo, um Felipe, um Ricardo,
um Júlio ou um Alexandre na vida? Tudo bem, pode ser uma
Juliana, uma Débora, uma Patrícia ou uma Ana...
Paquerar é bom, mas chega uma hora que cansa!
Cansa na hora que você percebe que ter 10 pessoas ao
mesmo tempo é o mesmo que não ter nenhuma, e ter apenas
uma, é o mesmo que possuir 10 ao mesmo tempo!
A "fila" anda, a coleção de "figurinhas" cresce, a conta
de telefone é sempre altíssima. Mas e ai? O que isso te
acrescenta? Nessas horas sempre surge aquela tradicional
perguntinha: Por que aquela pessoa pela qual você
trocaria qualquer programa por um simples filme com
pipoca abraçadinho no sofá da sala não despenca logo na
sua vida??? Se o tal "amor" é impontual e imprevisível que se dane!

Não adianta: as pessoas são impacientes! São e sempre
vão ser! Tem gente que diz que não é... "Eu não sou
ansioso, as coisas acontecem quando tem que acontecer."
Mentira! Por dentro todo ser humano é igual: impaciente,
sonhador, iludido... Jura de pé junto que não, mas vive
sempre em busca da famosa cara metade! Pode dar o nome
que quiser : amor, alma-gêmea, par perfeito, a outra
metade da laranja... No fim dá tudo no mesmo.
Pode soar brega, cafona...Mas é a realidade. Inclusive o
assunto "amor" é sempre cafonérrimo.
Acredito que o status de cafona surgiu porque a grande
maioria das pessoas nunca teve a oportunidade de viver
um grande amor. Poucas pessoas experimentaram nesta vida
a sensação de sonhar acordada, de dormir do lado do
telefone, de ter os olhos brilhando, de desfilar com
aquele sorriso de borboleta azul estampado no rosto...

Não lembro se foi o "Wando" ou se foi o "Reginaldo
Rossi" que disse em uma entrevista que se a Marisa Monte
não tivesse optado pelo "Amor I love you" e que se o
Caetano não tivesse dito "Tô me sentindo muito
sozinho.." eles não venderiam mais nenhum disco. Não
adianta, o público gosta e vibra com o "brega".
Não adianta tapar o sol com a peneira.
Por mais que você não admita: - Você ficou triste porque
o Leonardo diCaprio morreu em Titanic" e ficou feliz
porque a Julia Roberts e o Richard Gere acabaram juntos
em "Uma Linda Mulher";
Existe pelo menos uma música sertaneja ou um pagodinho"
que te deixe com dor de cotovelo;

Quando você está solteiro e vê um casal aos beijos e
abraços no meio da rua você sente a maior inveja;
Você já se pegou escrevendo o seu nome e o da pessoa
pelo qual você esta apaixonada no espelho embaçado do
banheiro, ou num pedacinho de papel;
Você já se viu cantando o mantra "Toca telefone toca" em
alguma das sextas-feiras de sua vida, ou qualquer outro
dia que seja; Você já enfiou os pés pelas mãos alguma vez na vida e se
atirou de cabeça numa "relação" sem nem perceber que
você mal conhecia a outra pessoa e que com este seu
jeito de agir ela te acharia um tremendo louco;
Você, assim como nos contos de fada, sonha em escutar um
dia o tal "E foram felizes para sempre"
Bem , preciso continuar? Ok, acho que não...
Negue o quanto quiser, mas sei que já passou por isso, e
se não passou, não sabe o quanto esta perdendo....

"O problema de resistir a uma tentação é que você pode
não ter uma segunda chance"

"Falo a língua dos loucos, porque não conheço a mórbida
coerência dos lúcidos"

Luiz Fernando Verissimo

Amor

Ela: Você me ama mais do que tudo?
Ele: Amo.
Ela: Paixão, paixão?
Ele: Paixão, paixão mesmo.
Ela: Mais do que tudo no mundo todo?
Ele: No mundo todo e fora dele.
Ela: Não acredito.
Ele: Faz um teste.
Ela: Eu ou fios de ovos.
Ele: Você, fácil.
Ela: Daqueles com calda grossa, que a gente chupa o fio e a calda escorre pelo queixo.
Ele: Prefiro você.
Ela: Futebol.
Ele: Não tem comparação.
Ela: Você esta caminhando, vem uma bola quicando, a garotada grita
"Devolve tio!" e você domina, faz dezessete embaixadas e chuta com perfeição.
Ele: Prefiro você.
Ela: Internacional e Milan em Tóquio pelo campeonato do mundo,
passagem e entrada de graça.
Ele: Você vai junto?
Ela: Não.
Ele: Pela televisão se vê melhor.
Ela: Faz muito calor. Aí chove, aí abre o sol, aí vem uma brisa fresca com
aquele cheiro de terra molhada, aí toca uma musica no rádio e é uma
nova do Paulinho. É Sexta-feira e a televisão anunciou um Hitchcock
sem dublagem para aquela noite... e o Itamar está dando certo.
Ele: Você.
Ela: Voltar a infância só pra poder pisar na lama com o pé descalço e
sentir a lama fazer squish entre os dedos.
Ele: Você, longe.
Ela: A Sharon Stone telefona e diz que é ela ou eu.
Ele: Que dúvida. Você.
Ela: Cheiro de livro novo. Solo de sax alto. Criança distraída. Canetinha
japonesa. Bateria de escola de samba. Lençol recém-lavado. Hora
no dentista cancelada. Filme com escadaria curva. Letra do Aldir
Blanc. Pastel de rodoviária.
Ele: Você, você, você, você, você, você, você, você, você e você,
respectivamente.
Ela: A Sharon Stone telefona novamente e diz que se você se livrar de
mim ela já vem sem calcinha.
Ele: Desligo o telefone.
Ela: Fama e fortuna. A explicação do universo e do mercado de
commodities, com exclusividade. A vida eterna e um cartão de
credito que nunca expira.
Ele: Prefiro você.
Ela: Uma cerveja geladinha. A garrafa chega estalando. No copo, fica com
um quarto de espuma firme. O resto é ela, só ela, dizendo "Vem".
Ele: Hummm...
Ela: Como, hummm? Ela ou eu?
.... Silêncio de 5 segundos ...
Ele: Qual é a marca?
Ela: Seu cretino!

Luis Fernando Verissimo

A Pessoa Errada

Pensando bem, em tudo o que a gente vê, e vivencia, e ouve e pensa,
não existe uma pessoa certa pra gente.
Existe uma pessoa que, se você for parar pra pensar é, na verdade, a pessoa errada.
Porque a pessoa certa faz tudo certinho.
Chega na hora certa,
Fala as coisas certas,
Faz as coisas certas,
Mas nem sempre a gente tá precisando das coisas certas.
Aí é a hora de procurar a pessoa errada.
A pessoa errada te faz perder a cabeça
Fazer loucuras
Perder a hora
Morrer de amor
A pessoa errada vai ficar um dia sem te procurar
Que é pra na hora que vocês se encontrarem
A entrega ser muito mais verdadeira
A pessoa errada, é na verdade, aquilo que a gente chama de pessoa certa
Essa pessoa vai te fazer chorar
Mas uma hora depois vai estar enxugando suas lágrimas
Essa pessoa vai tirar seu sono
Mas vai te dar em troca uma noite de amor inesquecível
Essa pessoa talvez te magoe
E depois te enche de mimos pedindo seu perdão
Essa pessoa pode não estar 100% do tempo ao seu lado
Mas vai estar 100% da vida dela esperando você
Vai estar o tempo todo pensando em você.
A pessoa errada tem que aparecer pra todo mundo
Porque a vida não é certa
Nada aqui é certo
O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento, cada segundo
Amando, sorrindo, chorando, emocionando, pensando, agindo, querendo,conseguindo
E só assim é possível chegar àquele momento do dia
Em que a gente diz: "Graças à Deus deu tudo certo"
Quando na verdade
Tudo o que Ele quer
É que a gente encontre a pessoa errada
Pra que as coisas comecem a realmente funcionar direito pra gente....
Nossa missão: Compreender o universo de cada ser humano, respeitar as diferenças, brindar as descobertas, buscar a evolução.
"Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas"

Luis Fernando Veríssimo